FUGA
SEM DESTINO: UM FILME INTERROMPIDO PELO CÂNCER
Já se passavam das 17h do dia 29 de julho de 2003, no Hospital
de Base de Brasília, quando Afonso Brazza pediu para ir
ao banheiro. Estavam ali no quarto além do paciente, eu
Pedro Lacerda, Ricardo Noronha, Adriane Bessa, Jean Carlo e o
João (só João não sei o seu sobrenome)
e mais algumas pessoas. João trabalhava com Brazza numa
chácara que havia comprado a prestações e
era o acompanhante que o ajudava a se locomover pelo quarto, pois
seu frágil corpo não mais permitia que ele fizesse
sozinho o pequeno trajeto da cama ao banheiro. Ao retornar, ajudado
por João, Brazza sentou-se na cama e ficou olhando para
o chão, até me perguntar se a janela do quarto estava
aberta ou se fechada. Respondi que estava aberta. Alguém
perguntou se queria que fechasse e de imediato ele respondeu que
não. Que a deixasse assim. Perguntei como ele se sentia.
E ele quase aos sussurros, me respondeu que se sentia mal, muito
mal. Tentei lhe animar dizendo que acreditava que logo ele sairia
dali para concluir seu filme. Ele me respondeu: "Não
sei não, meu amigo! Não sei não! Acho que
alguém vai ter que fazer isso por mim!" Enquanto isso,
o horário de visitas na oncologia daquele hospital, havia
se expirado há horas, mas o médico tinha dito que
poderíamos permanecer por mais tempo, se quiséssemos.
A
NOTÍCIA QUE NÃO QUERÍAMOS OUVIR
um pouco mais tarde, chamamos o médico ao quarto para que
ele conversasse um pouco com o paciente. Ao entrar, acariciou
a cabeça do enfermo e disse: - Assim que esse pessoal sair,
vou fazer uma drenagem nos seus pulmões para que você
respire melhor, tá bom? Brazza sacudiu a cabeça
com dificuldade, mas positivamente. Aquela era uma péssima
notícia. Ficou claro que, também os seus pulmões
já estavam comprometidos pelo câncer. Horas depois,
fomos convidados a nos retirar. Antes, porém, pedi ao Jan
Carlo, que naquela noite substituísse o João, pois
ele já estava lá, há duas noites, quase sem
dormir e sem trocar de roupas. Jean concordou.
POR
FAVOR, NÃO DEIXEM MEU FILME INACABADO
Fomos embora. Porém, antes de fazer a tal drenagem, Brazza
pediu ao João que pegasse uma caneta e um pedaço de
papel e anotasse, o que ia dizer. Dentre outras coisas, disse o
seguinte: - “Não deixem vender minha tartaruga (um
velho fusca 72) e não deixem meu filme inacabado. Escreva
aí os nomes do Pedro Lacerda, Ricardo Noronha, Paulinho Madrugada
(e de vários outros). Que eles se reúnam e que terminem
meu filme. Eu queria chegar a Hollywood, mesmo sendo o pior cineasta
do mundo, mas não vou conseguir”. João anotou
tudo e, em seguida, Brazza saiu em uma maca acompanhado pelo médico,
para fazer a tal drenagem e nunca mais voltou. Foi vencido pelo
câncer. Naquela noite, Jean não precisou voltar. O
amigo Brazza não precisaria mais da sua companhia.
UM
TRASH NO SHOPPING
Enquanto viveu, Brazza dirigiu, atuou e montou todos os seus filmes.
Um cinema totalmente trash, mas muito popular. Seu filme “Tortura
Selvagem - A Grade”, permaneceu por mais de 30 dias consecutivos
em cartaz no Cinemark do Píer 21, com sala lotada todos os
dias, superando filmes com orçamento até dez vezes
maiores que o seu.
O
ÚLTIMO FILME
Fuga sem Destino, aborda o tráfico de drogas e o seqüestro
de mulheres, com toda ação, pancadaria e gargalhadas
no melhor estilo Brazziano. Portanto, concluir esse filme é
questão de honra para todos nós que acompanhamos a
trajetória de Brazza. É também dar ao seu público,
a oportunidade de ver seu último (último mesmo!) filme.
Brazza transformou o quase nada em muito. Transformou balinhas de
coco em filmes e conseguiu ser, individualmente, com seus 8 filmes,
o maior produtor de cinema do Centro-Oeste. Mas, por vivermos num
país tão injusto, mesmo tendo realizado tantos filmes,
Brazza morreu pobre e endividado. Deixando como herança oito
filmes para Brasília e para o Brasil. Mas, para a viúva,
a atriz Claudett Joubert, infelizmente, deixou um patrimônio
de impagáveis dívidas Brazza conseguiu vencer muitas
dificuldades. Mas foi vencido pelo câncer. Brazza Morreu.
Se é que um dia Brazza vai morrer!
Pois bem, é isso. Relatei esses fatos para que todos saibam
que esse filme caiu inesperadamente no meu colo. Jamais imaginei
que um cara tão forte, musculoso e patola como o Brazza fosse
morrer tão repentinamente.